Cruzar a linha de chegada de uma prova de 140 km é, por si só, uma conquista significativa no Enduro Equestre. Para Amandine Moulin, porém, aquele momento no Campeonato Brasileiro de 2026 carregava o peso de uma história que havia começado quase uma década antes.
Não foi uma trajetória planejada a partir de grandes metas ou distâncias. Pelo contrário. Amandine e Luan avançaram pouco a pouco, aprendendo juntos e respeitando cada etapa de um processo que começou nos 20 km e passou pelos 40, 80, 100 e 120 km antes de chegar aos 140.
“Foi um passo depois do outro, sem pressa e com bastante prazer.”
Talvez essa frase seja a melhor síntese de uma história em que a conquista está menos no número estampado na distância e mais em tudo aquilo que foi necessário construir para alcançá-la.
Um encontro quase por acaso
Foi em Brasília que Amandine, francesa, conheceu o Enduro Equestre. A descoberta aconteceu quase por acaso, enquanto procurava onde praticar equitação.
O gosto pelo cerrado despertou a curiosidade pela modalidade. Mas, já nos primeiros treinos, ela percebeu que havia encontrado algo diferente. Não eram apenas as trilhas ou as paisagens que chamavam sua atenção, mas o tempo compartilhado com o cavalo, tanto montada quanto nos momentos em que precisava estar ao lado dele.
Também havia outra característica do Enduro que a atraía: a capacidade de ser, ao mesmo tempo, um esporte individual e coletivo. Cavalo e cavaleiro percorrem a trilha juntos, mas por trás de uma boa prova existe uma equipe de apoio fundamental.
No centro de tudo, porém, está sempre o mesmo protagonista. O cavalo.
Para Amandine, essa particularidade exige do cavaleiro muito mais do que capacidade técnica. É preciso aprender a observar, interpretar e, principalmente, compreender.
“Você precisa ser persistente, acreditar no seu cavalo, saber pedir e entender a resposta que ele pode dar.”
Nas provas, essa relação se torna ainda mais evidente.
“Vocês dois estão no mesmo barco. Seja bom, seja ruim, vocês estão juntos e precisam se ajudar para chegar.”
Luan, o cavalo de um sonho de infância
Quando Luan entrou em sua vida, os 140 km ainda não faziam parte dos planos. Amandine havia realizado algo muito anterior ao Enduro: o sonho de infância de ter um cavalo.
“Luan é o cavalo desse sonho.”
Ela o comprou sem saber muito sobre a modalidade. De certa forma, os dois começaram juntos.
A primeira experiência foi em uma prova de 20 km. O resultado daquela experiência levou à próxima. Vieram algumas provas de 40 km e, à medida que o interesse pelo esporte crescia, as distâncias também aumentavam.
Depois dos 40 km chegaram os 80. Em seguida, 100, 120 e, finalmente, 140 km. Não houve um grande plano traçado desde o início. Houve continuidade. E talvez justamente aí esteja uma das características mais marcantes dessa trajetória: a distância foi consequência do processo, não o contrário.
Quase dez anos aprendendo um ao outro
Ao longo de quase dez anos, Amandine passou a conhecer um Luan que se comporta de maneiras bastante diferentes dependendo do ambiente. Nos treinos, ele pode se assustar, brincar e demonstrar seu lado mais independente. Nas competições, transforma-se em um cavalo extremamente concentrado.
O tempo tornou essas reações cada vez mais familiares. Amandine aprendeu a prever muitos dos comportamentos de Luan e acredita que o contrário também seja verdadeiro. É uma relação que ela define por três palavras:
respeito,
superação
e afeto.
Com um complemento que revela muito sobre a intimidade construída entre os dois: “e muitos biscoitos!”
A competição é apenas a cereja do bolo
Em um esporte no qual cavalos podem demandar equipes inteiras de profissionais ao redor de sua preparação, Amandine reconhece a importância desse suporte. Mas entende que contratar bons profissionais não substitui sua própria responsabilidade sobre Luan.
Ela acompanha sua saúde, seus treinamentos e seu desenvolvimento, sempre com orientação profissional, mas sem abrir mão de participar diretamente desse cotidiano.
“Para mim, essa rotina é mais importante do que a competição. A competição é só a cereja do bolo.”
É uma maneira de enxergar o esporte que ajuda a explicar por que os resultados, embora importantes, nunca foram a única medida de sucesso dessa dupla.
Compartilhar a vida de Luan, acompanhar seu desenvolvimento e aprender com ele faz parte da experiência tanto quanto largar para uma prova.
E chegar aos 140 km exigiria exatamente isso: anos de construção antes de algumas horas de competição.
Preparação para ir mais longe
À medida que as distâncias aumentaram, Amandine também percebeu que precisava olhar com mais atenção para sua própria preparação.
Nos sete meses anteriores ao desafio dos 140 km, passou a realizar um trabalho físico mais específico para suportar uma jornada tão longa. Ao mesmo tempo, continuou treinando Luan pessoalmente pelo menos duas vezes por semana e passou a dedicar maior atenção à alimentação antes e durante as competições.
A experiência nos 140 km, no entanto, mostrou que ainda havia outro aspecto a desenvolver.
O mental.
A largada noturna gerou um nível de estresse que desencadeou um mal-estar durante a prova. A dificuldade para se alimentar aumentou o desgaste físico e transformou a competição em um desafio ainda maior do que o previsto.
Amandine terminou.
Mas a chegada trouxe primeiro alívio.
Só depois veio a dimensão da conquista.
Quando terminar significa mais do que vencer
No momento em que cruzou a linha de chegada, Amandine estava exausta.
Havia passado mal durante a prova e, naquele instante, sentiu mais alívio do que felicidade. Sua primeira reação foi agradecer a Luan.
Depois veio o vet final.
E, com a confirmação de que haviam concluído juntos os 140 km, o sentimento mudou.
A conquista começou a ocupar o lugar do desgaste.
Amandine percebeu que, apesar das dificuldades enfrentadas durante a prova, todo aquele caminho havia valido a pena. E fez questão de reconhecer também aqueles que estiveram ao seu lado e ajudaram a dupla a completar o desafio.
Era o fim de uma prova.
Mas, sobretudo, a confirmação de uma forma muito particular de enxergar o esporte.
Uma medida diferente para o sucesso
Amandine se define como atleta amadora.
O Enduro faz parte de sua vida, mas não ocupa todo o seu tempo nem todos os seus recursos. E isso fez com que construísse sua própria maneira de estabelecer objetivos e avaliar resultados.
Com Luan, foram 26 provas. Em apenas três delas a dupla não conseguiu terminar.
Houve pódios.
E houve muitas competições sem pódio.
Nenhuma dessas duas situações, porém, define sozinha o valor de uma prova.
“Competir, para mim, é atingir uma meta que combinei comigo mesma. É terminar uma prova com um cavalo em boa forma e tentar progredir cada vez mais.”
Essa talvez seja uma das ideias mais importantes de sua trajetória.
Em um ambiente esportivo naturalmente orientado por resultados, tempos e classificações, Amandine encontrou outra referência para medir suas conquistas: a evolução.
Completar uma prova com Luan em boas condições, avançar um pouco mais e voltar para casa sabendo que os dois estiveram bem.
“Algumas vezes estamos no pódio, muitas outras vezes não. Mas sempre tenho a satisfação de ter conseguido terminar. Isso não tem preço.”
Muito além dos 140 km
Os 140 km do Campeonato Brasileiro de 2026 podem ser registrados como uma distância concluída.
Mas contam apenas uma pequena parte da história.
Por trás desse número estão os primeiros 20 km, os treinos, os erros, as dificuldades, as provas que não terminaram, a preparação, os aprendizados e milhares de quilômetros compartilhados ao longo de quase dez anos.
Está também uma atleta que nunca colocou a pressa acima do processo e um cavalo que deixou de ser apenas seu companheiro de esporte para ocupar um espaço muito maior em sua vida.
Quando perguntada sobre o que gostaria de agradecer a Luan por tudo o que viveram juntos, Amandine não fala em resultados, quilômetros ou pódios.
A resposta é muito mais simples.
E talvez explique toda a história.
“Obrigada por aceitar dividir minhas loucuras. Obrigada por me permitir me superar. Obrigada pela sua sabedoria. Você guia minha vida.”
Para quem olha para as grandes distâncias do Enduro e acredita que elas pertencem apenas aos profissionais, sua trajetória deixa outra mensagem.
Não é preciso começar pensando nos 140 km.
É preciso começar.
Respeitar o próprio tempo, respeitar o tempo do cavalo, aprender com as dificuldades e continuar encontrando prazer no caminho.
Porque, como Amandine e Luan mostram, algumas das maiores conquistas do Enduro não acontecem apenas quando se cruza uma linha de chegada.
Elas são construídas, quilômetro a quilômetro, muito antes dela.
