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Dos 20 aos 100 km: Felipe Gentil estreia na alta performance do enduro equestre com vitória histórica

Dos 20 aos 100 km: Felipe Gentil estreia na alta performance do enduro equestre com vitória histórica

Após quatro anos de preparação, cavaleiro conquista seus primeiros 100 km FEI na Rach Stud International Cup e transforma um processo construído passo a passo em um dos momentos mais marcantes de sua trajetória no enduro equestre.

15 de agosto de 2026

Quatro anos para viver um único dia

No enduro equestre, existem conquistas que vão muito além do lugar mais alto do pódio. Completar uma prova FEI de 100 quilômetros representa uma mudança de categoria, de responsabilidade e de mentalidade. É o momento em que o atleta deixa definitivamente as categorias de formação para ingressar no universo da alta performance, onde cada detalhe — do treinamento à recuperação do cavalo — passa a fazer diferença. Foi exatamente esse momento que Felipe Gentil viveu na Rach Stud International Cup. Depois de quatro anos de construção silenciosa, ele cruzou a linha de chegada de sua primeira prova de 100 km FEI como campeão, em uma das competições mais tradicionais e prestigiadas do calendário brasileiro. Mas, para ele, a vitória foi apenas a consequência. O verdadeiro resultado começou muito antes da largada.

"Às vezes parece que foi muito rápido, mas foram quatro anos de preparação. Sempre ouvi que não adiantava ter pressa. Hoje percebo que cada etapa valeu a pena."

O esporte que mudou seus planos

Quando participou de sua primeira prova de enduro, em 2021, montando um cavalo Campolina nos 20 km, seu objetivo era apenas desfrutar da modalidade. A competitividade, naquele momento, ainda não fazia parte dos planos. Foi convivendo com o ambiente do enduro que tudo mudou. A atmosfera das provas, o desafio físico, a estratégia e, principalmente, o contato com os cavalos árabes despertaram uma nova ambição. No fim de 2024, veio a decisão que mudaria sua trajetória. Era hora de construir um projeto voltado para a alta performance. Vieram novos investimentos, mais estudo, planejamento, preparação física e uma rotina completamente diferente daquela vivida nas primeiras provas.

Alta performance nunca é um projeto individual

"Ninguém chega sozinho aos 100 quilômetros."

Enquanto muitas pessoas enxergam o enduro como um esporte individual, ele acredita exatamente no contrário. Segundo o cavaleiro, a prova é apenas o último elo de uma corrente formada diariamente por treinadores, veterinários, ferradores, fisioterapeutas, nutricionistas, equipe de apoio e familiares. Para chegar preparado à estreia, tudo foi planejado. Felipe perdeu mais de 10 quilos para reduzir a carga sobre o cavalo. Incluiu osteopatia, preparação física específica, ajustes de mobilidade, além de uma rotina intensa de treinamento. Granatus também recebeu uma preparação completa, envolvendo condicionamento, fisioterapia, acupuntura e acompanhamento constante. Foi, segundo ele, um verdadeiro projeto de alta performance.

"A prova é só o último elo de uma corrente muito longa. Todo dia tinha gente trabalhando, faça chuva ou faça sol."

Granatus: muito mais que um cavalo de competição

Nenhuma grande conquista acontece sem um grande parceiro. E basta ouvir Felipe falar de Granatus para entender que essa relação ultrapassa qualquer conceito esportivo. Durante os 100 quilômetros, cavalo e cavaleiro enfrentaram juntos desgaste físico, decisões estratégicas e momentos de superação. Mais do que técnica, o resultado foi construído sobre confiança. Uma confiança tão profunda que, segundo Felipe, muitas vezes dispensa comandos. Basta um movimento, um gesto ou simplesmente uma intenção.

"Você precisa ter uma conexão até de pensamento. No último morro eu subi chorando. O Granatus foi simplesmente incrível."

O que ninguém vê por trás do troféu

Toda fotografia no pódio esconde meses — às vezes anos — de trabalho. No caso de Felipe, o principal desafio foi pessoal, conseguiu reduzir seu peso de 94 para menos de 84 quilos até o dia da largada. Já com Granatus, o desafio era outro. O cavalo chegou extremamente preparado, e missão passou a ser controlar toda aquela energia para que ela fosse distribuída ao longo dos 100 quilômetros. Foi esse equilíbrio que permitiu ao conjunto manter desempenho e saúde até o final da prova.

Um cenário que tornou tudo ainda mais especial

Se existia um lugar ideal para viver esse momento, provavelmente seria a Rach Stud International Cup. Realizada em um dos cenários mais bonitos do calendário nacional, a prova reúne trilhas à beira da represa, trechos de mata e percursos que transformam a competição em uma experiência única. Felipe já possuía uma ligação afetiva com o local, foi ali que conquistou sua vitória nos 80 quilômetros e agora, voltou para escrever um capítulo ainda maior.

"Primeiro vencemos os 80 km. Agora voltamos para vencer os 100. É um lugar que certamente vai marcar minha história."

A subida que terminou em lágrimas

Toda grande prova tem um momento que fica gravado para sempre. Na estreia dos 100 quilômetros, esse momento aconteceu no último morro: antes da subida final, Felipe parou Granatus, respirou fundo, fez um carinho no pescoço do cavalo e seguiu emocionado até a chegada. Depois veio a aprovação no Vet Check final, abraço no treinador e a certeza de que aquele dia jamais seria esquecido.

"Foi um dos melhores dias da minha vida. Eu só repetia para o Granatus: 'A gente merece'. Chorei no último morro, chorei no Vet Check e chorei abraçando meu treinador."

O segredo não é perfeição.

É consistência. Assim como a maioria dos atletas brasileiros de enduro, Felipe concilia o esporte com sua profissão, não vive exclusivamente das competições. Ainda assim, encontrou uma fórmula simples para evoluir, não buscou perfeição e sim consistência. Treinar, dormir bem, alimentar-se corretamente e repetir esse ciclo durante meses.

"Acertei cerca de 90% dos treinos, da alimentação e do sono. O importante foi manter a consistência."

Um conselho para quem sonha chegar aos 100 km

Ao olhar para trás, Felipe percebe que a maior lição não veio da vitória, veio do processo. Segundo ele, o enduro ensina que confiança não se constrói em uma única prova nem um grande conjunto nasce da noite para o dia. É preciso desenvolver técnica, preparo físico, equilíbrio emocional e, principalmente, fortalecer diariamente a relação entre cavalo e cavaleiro. Só então a alta performance deixa de ser um objetivo distante para se tornar consequência.

O primeiro capítulo de uma história maior

Mesmo depois da vitória, Felipe não mudou sua maneira de enxergar o esporte, os próximos passos continuam sendo exatamente os mesmos: treinar, aprender, respeitar o tempo dos cavalos, buscar novas qualificações e seguir evoluindo. Sem atalhos e sem pressa. Quatro anos depois daquela primeira prova de 20 quilômetros, o cavaleiro que entrou no enduro apenas para experimentar uma nova modalidade cruzou a linha de chegada de seus primeiros 100 km FEI como campeão. Para muitos, foi uma estreia perfeita, para Felipe Gentil, foi apenas mais um degrau de uma jornada que ainda está começando.

Publicado em15 de agosto de 2026
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