Uma prova em Caetanópolis, em Minas Gerais, mudou o rumo da carreira de Rafaela Pantel. Em 2021, depois de competir com La Tache D’Jok TRIO, a brasileira recebeu a oportunidade de trabalhar com o La Tacada. O destino inicialmente previsto era o Uruguai, mas o caminho a levou a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A relação com os cavalos, iniciada na infância e construída nas trilhas de Brasília, passava a orientar também sua vida profissional.

Hoje, Rafaela divide a rotina entre treinar e competir, gerenciar o estábulo onde trabalha e administrar uma clínica veterinária. A experiência ampliou sua compreensão sobre o alto rendimento: o desempenho apresentado em uma prova depende de um trabalho diário que envolve preparo físico, manejo, observação dos animais e coordenação entre profissionais. “Aqui você vive literalmente o cavalo”, resume
A mudança exigiu adaptação a outra cultura e a uma dinâmica de trabalho que ela considera mais intensa. Também trouxe o contato frequente com competições de características diferentes das que conhecia no Brasil, sobretudo pela velocidade e pelas exigências da montaria no deserto.

Uma formação construída perto dos cavalos
Rafaela começou no enduro aos cinco anos, apresentada à modalidade por Getúlio e Luciana Cardoso. Antes disso, já montava com o pai e tinha contato com práticas da equitação western, como o team penning.


Das primeiras experiências em Brasília, guarda a lembrança de terminar rapidamente as tarefas da escola para passar mais tempo com os cavalos e encontrar os amigos. Treinos e competições faziam parte da convivência que ajudou a construir seu vínculo com o esporte.

Os pais e o irmão permaneceram como apoio ao longo dessa trajetória. Segundo a atleta, eles acompanham todas as provas em que compete. Entre os cavalos que marcaram sua formação estão Shamara El Emir, Niva MC, Zingaro Rach, Kadi Albar, Plato do Bom Viver, Anys HNP e La Tache TRIO. Ao recordá-los, porém, ela evita restringir o aprendizado aos nomes de maior destaque: considera que cada animal que montou no Brasil contribuiu para a profissional que se tornou.
A vontade de trabalhar com cavalos já existia, mas a profissão ainda não estava definida. Rafaela pensou em caminhos como a medicina veterinária e o treinamento, até optar pela faculdade de jornalismo. Ao concluir o curso, teve a certeza de que queria voltar a se dedicar aos animais. Esse retorno permitiu aprofundar a participação nos treinos, no manejo e nos cuidados cotidianos. Foi nessa aproximação com todas as etapas da preparação que a carreira ganhou direção, até a oportunidade surgida depois da prova mineira.
O deserto exige mais do que velocidade
A adaptação aos Emirados trouxe desafios que, no relato de Rafaela, estiveram mais ligados à cultura e ao trabalho do que ao idioma. O inglês permitiu a comunicação; a rotina exigiu aprender outra maneira de treinar e competir. A atleta contesta a impressão de que correr no deserto se resume a seguir em linha reta. Sustentar a montaria em velocidades elevadas e participar continuamente do resfriamento do cavalo exige resistência física e coordenação. Ela destaca o esforço de receber e utilizar garrafas de água ao longo de provas que podem chegar a 160 quilômetros.

Seu relato mostra como a atuação do cavaleiro permanece ativa durante o percurso. A velocidade acrescenta exigências à execução dessas tarefas e torna o preparo físico do atleta parte relevante do trabalho com o conjunto. As características das competições também mudam sua percepção do desafio. Ao mencionar a Fursan Cup, Rafaela a descreve como uma prova mais técnica e de menor velocidade em comparação com as disputas que costuma enfrentar nos Emirados. Para ela, a experiência acumulada competindo naquele ambiente ajuda a lidar com a pressão.
A confiança construída nas provas, entretanto, vem acompanhada de uma lição que destaca desde que passou a trabalhar profissionalmente: paciência.
“A paciência é essencial para chegar ao alto nível com excelência. Isso foi o que mais aprendi e aprendo até hoje.”
Aprender a reconhecer os sinais
Na estrutura em que trabalha, Rafaela treina diariamente e compete com os cavalos, além de assumir responsabilidades de gestão. Na clínica veterinária, também auxilia nos procedimentos quando necessário, segundo relata. Essa convivência permite acompanhar os animais para além do momento da competição. É nesse contato contínuo que ela situa um dos conhecimentos mais importantes para quem pretende evoluir no enduro: perceber o que o cavalo comunica.
“Os cavalos te dão sinais o tempo todo. Nós é que temos que aprender a ouvi-los.”

A observação ganha ainda mais relevância diante das condições de treinamento. Durante o verão, conta Rafaela, as atividades são realizadas à noite. A estrutura disponível inclui pista, ambientes climatizados para os cavalos e alimentação de qualidade. Em sua avaliação, o resultado depende da combinação desses recursos com o trabalho diário.
O cuidado com o animal integra, portanto, a preparação esportiva. Na experiência descrita pela brasileira, conhecer cada cavalo e acompanhar suas respostas faz parte do mesmo processo que desenvolver condicionamento e preparar uma participação em prova. Esse trabalho também exige uma equipe entrosada. Rafaela ressalta que cavalo e cavaleiro dependem de profissionais com funções distintas para chegar ao resultado.
“Se o time está entrosado, tudo anda mais fácil.”
Os cavalos que dão sentido à trajetória
Ao falar das montarias que marcaram sua carreira internacional, Rafaela cita BAR Peroni, Dune du Claud e TC Soberano. Mas reserva espaço também para experiências que não terminaram com o resultado esperado.
É o caso de RSC Derek, seu próprio cavalo, com quem teve a oportunidade de disputar o primeiro Mundial. A importância dessa parceria permanece associada ao acesso a uma nova etapa da carreira, independentemente da classificação.


Representar o Brasil segue entre suas motivações. Rafaela afirma trabalhar para alcançar melhores resultados e mantém os próximos Mundiais entre seus objetivos.
Ao olhar para o país onde começou, destaca a confiança na criação brasileira e uma característica que atravessa suas lembranças de infância: a presença da família no esporte.
“O que acho de mais legal no enduro no Brasil é que a família está toda reunida em um só propósito.”


Para os jovens que desejam seguir uma trajetória profissional, seu conselho é persistir diante das dificuldades. Sua própria história dá conteúdo a essa orientação: houve uma formação fora do universo equestre, o retorno ao manejo diário e uma oportunidade de trabalho cujo destino mudou antes de se concretizar.
Entre Brasília e Dubai, Rafaela passou a assumir novas responsabilidades, sem se afastar do aprendizado que considera essencial. É no treino de todos os dias, no acompanhamento de cada animal e na capacidade de reconhecer seus sinais que ela continua preparando os próximos passos da carreira.
